DÉCIO SÁ

DÉCIO SÁ

Por JM Cunha Santos


Não sei o que escrever. Pela primeira vez não sei o que dizer. Estou puído. Não faço questão de fazer parte dessa humanidade. Se é que isso é uma humanidade. Quem mata gente assim? Quem pode ser tão bárbaro e tão covarde? O que há nas almas deles? Quais são as substâncias que correm nessas veias assassinas?

Convivi tempo demais com Decio Sá, com o repórter sedento de notícias que conheci no jornal “O Imparcial”. Não compreendo. Não sei quem são essas pessoas nem do que elas são feitas, nem porque é tão fácil e necessário matar jornalistas. Estou pasmo, descrente, ferido, estuprado. Estou caindo. Quero continuar caindo. Não é assim que se resolvem as diferenças humanas, pelo menos não deveria ser assim.

Aos sessenta anos estou cansado de conferir cadáveres, estou farto, indigesto de tanta violência, tanto ódio e terror. Estou cansado, simplesmente cansado de ser gente. De querer ser gente e não conseguir. Lamento Décio, lamento muito e profundamente. Por você e por todos nós.

E nada podemos, teus colegas de profissão, te oferecer agora, a não ser essa madrugada silente e insone que os bárbaros sem alma, os filhos de Belzebu, quiseram transformar em horas de horror.

O crime venceu e está vencendo. Vence sempre. Parece que, de repente, ninguém mais obedece às ordens de Deus ou, então, por tanto ser desobedecido, Deus prefere não dar mais ordens a ninguém.

Os que te matam, hoje, matam a liberdade, matam a sociedade e tentam matar uma profissão, enforcar a notícia. Não sei mais o que dizer. Não quero apagar a luz. Não quero a luz. Não quero dormir. Quero que esses assassinos paguem por seu crime. Aqui e no inferno de suas almas. Seja feliz, por favor…

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