Duque Bacelar: o aniversário, o retorno a praça e o reencontro com a história

Hoje comemoramos 122 anos do nascimento de Raimundo de Melo Bacelar, o lendário Coronel Duque Bacelar. Nascido de um parto complexo em meio a tranquilidade do povoado Olho d´Agua Pequeno, o menino descendente de família rica que cresceu convivendo com a pobreza era destemido demais para reclamar das adversidades.

Apesar da pouca instrução, Duque era autodidata e um homem a frente do seu tempo. Naquele período já via que o investimento na agricultura poderia ser uma saída para a pobreza da velha Curralinho, tanto que investiu na criação de campos agrícolas e na busca do primeiro engenheiro agrônomo para garantir o suporte técnico necessário.

Mesmo pobre não se fez de rogado e conseguiu conquistar o coração da serena Maria Bacelar (a moça rica de uma das famílias mais tradicionais da época), com quem casou e constituiu uma família numerosa de 18 filhos nascidos e 11 sobreviventes – dos quais 08 ainda vivem.

Estamos falando do primeiro prefeito eleito de Coelho Neto – o homem que construiu o primeiro grupo escolar, que implantou a luz elétrica, que construiu o campo de aviação, que inspirou o Centro Artístico Operário – que segue de pé, que iniciou a construção do primeiro cemitério público e que fundou a Sociedade Beneficiente para garantir donativos para que a Igreja de Sant´Ana que havia sido demolida fosse reconstruída.

A morte prematura aos 57 anos não interrompeu que seus sonhos pensados para Coelho Neto pudessem sair do papel. No decorrer da história, 04 de seus filhos foram prefeitos dessa cidade: Dalva Bacelar, Antônio Bacelar, Afonso Bacelar e Magno Bacelar – a primeira foi a única mulher na Constituinte de 1947 e o último foi senador da República.

Inspirados pelo também visionário Raimundo Bacelar – o filho que chegou à presidência da Assembleia Legislativa do Maranhão, fora criado o Grupo Bacelar que resultou em vários investimentos na cidade dentre os quais a pioneira Usina Itapirema e o Complexo Industrial Cepalma – o segundo maior do Nordeste.

Na manhã deste domingo (06), após uma missa em Ação de Graças na Igreja de Sant´Ana para celebrar seu aniversário natalício, o busto de Duque Bacelar retornará a praça que homenageia seu nome no centro da cidade, num momento de reencontro da nossa história com ela própria. Não há como falar do nosso passado sem citar a participação de Duque e seus filhos. É um momento de cultuarmos a memória do maior vulto histórico dessa região, eternizado e imortalizado pelos seus grandes feitos.

Que tal reconstruirmos parte da história de Coelho Neto?

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Prédio colonial construído por Antônio José Martins em 1846 no Itapirema e demolido sem nenhuma razão pelos gerentes do Grupo João Santos

A experiência de escrever um livro sobre parte da história de Coelho Neto tem nos dado a triste conclusão que as pessoas de nossa cidade não tem amor pela nossa história ou dá de ombros para esse assunto.

Não tivemos na cidade ao longo do tempo o hábito de guardar fotos, preservar os prédios históricos e colecionar algo que pudesse nos ajudar a reviver o passado. Isso além de triste é lamentável.

O Itapirema por obrigação deveria ser algo a ser intocável, pois foi naquele pedaço de chão que nasceram as mais representativas figuras da velha Curralinho. Foi ali que grandes decisões foram tomadas e por ali uma história de ousadia começou a ser escrita.

O Grupo João Santos tem uma dívida histórica com a cidade por haver demolido sem nenhuma razão, a casa construída pelo Coronel Antônio José Martins em 1946 e onde morou Duque Bacelar.

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Terra nua: local onde a Casa Grande era construida hoje está tomado pelo mato

E que tal tentarmos saldar essa dívida? Porque não montarmos uma força tarefa para reerguer nos moldes originais o antigo casarão e lá abrigar o Museu da Cidade? Esse é um sonho pessoal que será dividido com todos aqueles que tem o mesmo desejo de ver a história de Coelho Neto ser resgatada na sua plenitude. Professor Antonio Nonato Sampaio se tivesse vivo sem dúvida alguma, folgaria com a idéia.

Se tivermos os parceiros necessários para essa empreitada duvido muito que não tenhamos o apoio por parte do Grupo João Santos, para que a construção seja reerguida no mesmo local de origem.

A história não pode ser apagada, ao contrário, tem que ser contada para que as atuais e futuras gerações não nos condene por omissão e negligência da nossa condição de povo civilizado.

Sigam-me os bons…

Coluna do Magno: O Itapirema

Pedra de fogo em Tupi Guarany deu nome à propriedade que, em Coelho Neto, retrata a saga da família de Duque Bacelar. Irrigada naturalmente por riachos e olhos d’água,   nela está encravada a mais extensa e fértil área de terras do município. Sua história se confunde com as da própria cidade fundada a margem esquerda do rio Parnaíba.

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Belíssimo e muito antigo o prédio colonial construído na sede do Engenho Itapirema, onde nasceram as figuras mais representativas da velha Curralinho e demolido sem nenhuma razão. Uma lástima!

Onde as  flores,  pássaros,  animais silvestres  misturam suas cores e cantos ao som das ferramentas de trabalho foi edificada, no século XVIII, a Casa Grande do ITAPIREMA Em pedra e cal, muito sólida,  guarda nítida a influência dos colonizadores portugueses. O telhado armado em madeira de lei e carnaúba, o piso em taboa corrida nos dormitórios e cerâmica nos outros cômodos. A esquadria (portas e janelas) em cedro é artesanalmente trabalhada.  Nas bandeirolas talhadas em alto relevo, e preservadas as respectivas cores, os brasões da Republica e de Portugal. Chama a atenção as dimensões e quantidade de cômodos: salas, dormitórios, banheiros, dispensa e demais dependências.

O estilo medieval se manifesta com a anexação  à residência, de engenho de açúcar, alambiques para o fabrico da cachaça, a oficina do ferreiro, uma serraria, além dos armazéns onde está  armazenada  toda a  produção da fazenda. Destaque para o deposito de sal e a cozinha, nesta última eram preparadas mais de 100 refeições para o almoço e aproximadamente cinquenta para o jantar.

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Fazenda Itapirema

Contrastando com o bucolismo da natureza e a ingenuidade do camponês no ITAPIREMA, dos anos 1940, é possível desfrutar de alguns modernismos. Temos geladeira, gerador  elétrico, rádio, caminhão e até uma camioneta FORD (a fóbica) além de uma piscina  natural encravada na rocha  e revestida com madeira (o tanque). O Duque, obstinado pelo progresso, fez curso de primeiros socorros, obstetrícia e  ortopedia,   com médicos aparentados e amigos de São Luís. Para atender melhor aos moradores e parentes, dispõe de alguns instrumentos médicos devidamente esterilizados quando em uso. Foi o Duque que fez os dezoito partos de D.  Maria.

O rádio, com olho mágico para a sintonia fina, tem um único concorrente. Ao anoitecer os convidados, da casa e das redondezas, vão chegando pedindo licença e se abancando em torno do rádio para ouvir as notícias do mundo e às novelas.  Já nas noites de lua, no mesmo horário, era a vez do concorrente, como que obedecendo a um comando, lá estão todos no bagaço.  A cana, após passar pelas moendas do engenho, se transforma em forragem muito apreciada por gado, muares e equinos, é o bagaço muito macio e cheiroso. Em torno dele contam-se e ouvem-se histórias, pratica -se, também, lutas livres e capoeira no mais doce e macio tatame.

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Capela do povoado Itapirema edificada para guardar os restos mortais de Duque Bacelar e Maria Bacelar em 1955. O projeto foi executado por Genes Soares.

As reuniões, ao  pé do rádio ou no entorno do bagaço, servem pra colher informações e sentir os problemas dos caboclos. Certa feita um morador se aproximou do Duque e, sem preâmbulo, pediu ajuda : seu Duque eu e  a  Tacila se juntemos e fumo porduzir, nasceram  dois hominho e uma menina, agora a muié perdeu o rumo e eu vim pra mode o  senhor criar os meus fios. Também fala-se mal da vida alheia pois, a final, somos humanos.

O tempo todo usei o verbo no presente porque este ITAPIREMA  permanece vivo  em nossas lembranças e perante a história. A ignorância, aliada da mesquinhez demoliu a casa, um patrimônio histórico, mas jamais conseguirá apagar o que nela foi escrito pelo homem.

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Itapirema nos dias atuais

Magno Bacelar é ex-deputado estadual, ex-deputado federal, ex-vice-prefeito de São Luís, ex-senador e ex-prefeito de Coelho Neto