Coluna do Magno: Cidade da Minha Infância

Hoje acordei embalado por uma imagem da infância, lembranças de uma cidade bucólica e, até mesmo, ingênua. Trata-se do Ciro, mestiço de índio, figura carismática, retrato de uma época; ganhava o pão carregando água do poço público para as residências particulares mediante módica remuneração. Duas latas de vinte litros pendentes de uma travessa de madeira sobre os ombros além de um rasgado chapéu de palha completavam a figura inesquecível do homem que subia e descia as ruas incansavelmente. De repente depositava sua carga no chão, soltava um assovio curto e forte seguido do diálogo: “ – Que sons é este seu Durval? – Sons de música, respondia. -De onde? – Do Brejo de Ana Purus!” afirmava convicto.  Soltava uma gostosa gargalhada e seguia em frente. A origem e o desaparecimento de Ciro são incógnitas, o que fica para a história é a figura do vendedor de água da província que, em menos de uma década, o progresso transformou em cidade industrial.

Antes da industrialização (1962/1964), Coelho Neto era uma cidade tipicamente interiorana, pequena, tranquila e acolhedora como tantas outras às margens do Rio Parnaíba.  A população não passava  de cinco mil  habitantes, distribuídos entre a sede e o interior, mais concentrada nos povoados. Ainda não haviam sido desmembrados do seu território os municípios de Duque Bacelar e Afonso Cunha

Na economia predominava a agricultura e o extrativismo incluindo-se incipiente pecuária bovina e suína. Criava-se carneiros e cabras além de aves, tudo isso, em escala rudimentar. Em alguns povoados eram vistos pequenos canaviais e fabricava-se cachaça e rapadura, em outros predominavam as frutas, laranjas, bananas e mangas além de tangerinas. Cada rincão, com a sua característica, era eficiente suprindo a seus moradores com mesa farta.

Haviam também os quebradores de coco babaçu, atividade em que as mulheres predominavam e eram responsáveis por boa parcela da renda familiar. Os homens, além da roça, dedicavam-se à caça e à pesca. Mendigos não eram vistos nas ruas que tão pouco abrigavam criminosos. A cadeia pública era simbólica, estava quase sempre vazia.

O transporte de cargas, mercadorias e produção local era feito no lombo de jumentos, mulas e cavalos.  Quando em maior quantidade utilizava-se o carro de boi. No município existiam apenas três caminhões, dois no interior (Itapirema e Posse) e um na cidade, veículos estes destinados a cargas mais pesadas, urgentes e de longa distância.

Na cidade, além dos serviços burocráticos e administrativos, predominava o comércio varejista. Havia um único atacadista, a Casa Marc Jacob com sede em Parnaíba, que monopolizava esta modalidade de negócios. Misto de entreposto e casa bancária, Jacob antecipava mercadorias e dinheiro caros recebendo em troca os produtos que exportávamos a preços aviltados.

Não existiam clubes sociais nem agências bancárias, farmácia só a do Vicentinho. As comunicações eram feitas pelos Correios e Telégrafos. Os médicos mais próximos encontravam-se em Caxias ou Teresina. Da mesma forma não dispúnhamos de linhas regulares de ônibus ou vans. Registre-se o pioneirismo de Joaquim Rêgo nesta atividade ainda que em caminhão jardineira (na foto um modelo da época).

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Ao entardecer as famílias colocavam cadeiras nas portas para receber visitas informais e jogar conversa fora. Os bailes aconteciam em casas de famílias, no Centro Operário ou nos povoados. As festas religiosas eram exuberantes em jóias e lances pródigos somando-se a elas as novenas e leilões do interior. Destaque-se a Semana Santa simbolizada pela troca de “jejuns”, visitas aos amigos e parentes nos povoados e, por lá, permanecendo em vigília e orações. Eram comuns as excursões de fins de semana em busca das frutas silvestres, da caça e da pesca.

Bons tempos em que não existiam modernismos, supérfluos, drogas, violência e outros flagelos de agora. Sobravam amor, paz, fraternidade e respeito à família…

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.