Coluna do Magno: Vocação e Destino

Nem sempre as pessoas se formam para a profissão a que estão vocacionadas principalmente quando as cidades nas quais residem não oferecem opções. Isso acontecia, com maior frequência, antes da proliferação do número de faculdades e surgimento   dos cursos à distância ou virtuais. Outras conseguiram os diplomas desejados, mas o destino os encaminhou para outra direção. Conheço muitos casos que se enquadram nas duas hipóteses dentre eles o de Genes Soares e o meu próprio.

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Capela do Itapirema em Coelho Neto: projeto arquitetônico do advogado Genes Soares

Genes Celeste Soares piauiense e excepcional talento para o desenho, sonhava em ser arquiteto, mas como em Teresina não existia faculdade de desenho ou arquitetura, terminou por se formar em Direito. Muito embora a falta de formação adequada não o tenha impedido de brilhar pelas plantas que desenhou e pinturas que o consagraram, faltou-lhe o título para abrir-lhe, oficialmente, as portas do mercado de trabalho. Genes foi o cenógrafo da TV Difusora, quando da sua inauguração e toda a programação era feita ao vivo. Produziu cenários memoráveis dos quais todos nós e telespectadores muito nos orgulhamos. Igualmente fez-se grande  colaborador quando da implantação das industrias  em Coelho Neto. Rendo aqui, agora e sempre, homenagens merecidas ao seu talento e à figura humana que representou.

Quanto a mim, que nunca tive dúvidas quanto a vocação, a vida ofereceu todas as facilidades e a família propiciou os meios, bacharelei-me em Direito cheguei a fazer estágio, como solicitador, registrei-me na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) mas não exerci a profissão.

Bem que eu poderia ter percebido que, a partir de um determinado momento, 1960, a família vinha me delegando funções atípicas ao exercício do Direito e mais inerentes a política. Eram visitas, recepções e representação a que eu deveria comparecer em nome da família. Às vezes Raimundo, mamãe ou Antônio determinavam que eu acompanhasse pessoas e políticos, de Coelho Neto, da região ou, ainda de São Luís, em suas viagens ao Rio.

Dentre as missões recebidas destaco o casamento de um grande amigo e membro de tradicional família de Coelho Neto. Salamundo Bastos, do Bomfim, noivou com uma enfermeira que fora transferida para o Hospital dos Servidores no Rio onde iriam casar-se. Recebi um Western (telegrama por Cabo Submarino) no qual Raimundo transmitia ordens de minha mãe para que eu comparecesse às núpcias representando os Bacelar. Na data aprazada compareci me fazendo acompanhar do meu irmão Bernardo. A solenidade foi realizada na Igreja da Penha e a recepção na casa da noiva no bairro de Ramos.  Seguindo as tradições de nossa terra o noivo nos cobriu de atenções. Enquanto a festa seguia muito animada, Bernardo conheceu Dalva e eu a Marly, duas lindas moças, não deu outra, rolou namoro. Nos fins de semana passamos a frequentar a casa do jovem casal fazendo passeios juntos, quando não íamos ao cinema com as namoradas. Tudo ia muito bem, o namoro de vento em popa, até que um dia Bernardo foi ao telefone público (orelhão) e voltou para me anunciar que havia terminado o namoro. Perguntei por que fizera isso com a Dalva ao que respondeu “acabei por nós dois, com a Marly também”. Era muito longe, rematou ele.

 Sofri a primeira grande decepção ao acompanhar o Deputado Federal Cid Carvalho, então representante político da família, a uma audiência com o Ministro da Justiça Senhor Nereu Ramos. Pretendíamos conseguir do Ministro a transferência dos dois assassinos de meu pai, presos na Paraíba, depois de longa jornada da polícia do Maranhão. O Governo daquele Estado reteve os policiais e se negava a permitir o deslocamento dos prisioneiros. Enquanto buscávamos os caminhos da Lei, a Justiça paraibana dava fuga aos facínoras que dali se evadiram para nunca mais serem vistos. O lastimável episódio fortaleceu minha convicção de que deveria ser advogado.

O meu exame de vestibular foi acompanhado de perto, e pessoalmente, por Raimundo que se encontrava no Rio tratando de negócios do interesse da Rádio Difusora, junto a CTR (Comissão Técnica de Rádio). Aprovado no vestibular recebi, como presente, o convite para trabalhar com ele em São Luís e, futuramente, sucede-lo à frente de suas empresas e na política. Revelando-me que pretendia se dedicar exclusivamente aos projetos de Coelho Neto. Só então percebi que, durante todo aquele tempo, estava sendo testado e que, finalmente, estava sendo admitido para algo muito além da Faculdade de Direito.

O tempo passou e muita coisa aconteceu após esta conversa. Continuei trabalhando e cursando a Faculdade, obvio que com mais responsabilidades e encargos, até que um ano antes das eleições de 1963, Raimundo voltou a me convocar e, desta feita, orientar a pedir demissão dos Correios, transferir meu título eleitoral e o curso  universitário para o Maranhão. A essa altura eu já havia adquirido casa própria, ficara noivo de Maria Izabel Vinagre Brasil com que contraí núpcias pouco antes da mudança no início de 1962. Tive como padrinhos de casamento o Senador Vitorino Freire e o Deputado Cid Carvalho. Voltei para São Luís onde iniciou-se uma longa saga de muitas lutas e grandes vitórias.

O destino não permitiu que eu exercesse a profissão vocacionada mas levou-me a viver, permanentemente, defendendo os mais humildes, a cidadania, o direito à educação de qualidade e à liberdade plena.

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

One thought on “Coluna do Magno: Vocação e Destino

  1. É LAMENTAVEL QUE EM COELHO NETO TENHAM PESSOAS APEGADAS AO PODER PUBLICO. É TUDO NA BASE DO TOPA TUDO POR DINHEIRO E O MAIOR PREJUDICADO É O POVO…ESTOU ENVERGONHADO COM ESSA POLÍTICA DE QUE VALE QUEM TEM…DEPOIS FALAM EM IMPEACHMENT DA PRESIDENTE…HAHAHAHA, É ESSE PAÍS QUE QUEREMOS MUDAR? OU ESTE TIPOS DE PESSOAS QUE N PODEM VER DINHEIRO NA MÃO? VERGONHA….

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