Coluna do Magno: Viagem ao Rio

Jamais se poderá negar a importância da contribuição dos irmãos mais velhos para a criação e educação dos mais jovens. Mesmo porque a formação que   receberam os levou a isso, assim é que muitos ao atingirem a idade legal foram padrinhos dos subsequentes. Meus agradecimentos a todos, indistintamente, pela fraternidade do convívio e solidariedade sempre presente entre nós.

duque e maria
Dona Maria Bacelar

Imperativo se faz ressaltar a figura de D. MARIA BACELAR, mãe extremada, mulher corajosa e terna jamais foi coadjuvante, sempre esteve na linha de frente. Com o Duque vivo foi o seu esteio, depois de morto assumiu o comando com muita suavidade e segurança. “Teve firmeza sem perder a ternura”.  Sob sua supervisão e inspiração tivemos, naquele ano, férias diferentes nas quais diversão e trabalho se mesclaram nos preparativos para a viagem da esperança e da transformação.

Manter uma família tão numerosa de onze filhos dando-lhes educação primorosa não era, nem é agora, tarefa fácil principalmente quando a renda familiar provinha unicamente da zona rural. Os gastos eram regrados, não podíamos nos dar ao luxo do desperdício sob pena de faltar recurso para as prioridades: educação e saúde. A aquisição do apartamento provocou mudança radical e investimentos extras com enxoval completo: lençóis, fronhas, pijamas, calças, camisas, cuecas, toalhas, pano de prato, etc… tudo a ser confeccionado em Coelho Neto por D. Maria e suas auxiliares.  No Rio seriam adquiridos móveis, eletrodomésticos, agasalhos, meias e material didático. Por economia ainda levaríamos doces, biscoitos e outras guloseimas com sabor do Itapirema.  O excesso de bagagem tornou-se uma preocupação a mais. Sabia-se da rigidez das companhias aéreas sob este aspecto. Imaginava-se uma maneira de minimizar este custo.

Para amealhar um dinheirinho extra era permitido a cada menino uma cota de frutas, doces e broas a ser vendida na loja. Competia ao beneficiário a coleta das frutas e agradar uma das ajudantes da cozinha para preparar os quitutes. As meninas eram beneficiadas com trabalhos manuais de costura, dos quais igualmente participavam, também vendidos no comércio. Esta prática salutar ensinava as crianças a amealhar recursos próprios por elas administrados no período letivo.

 Ao se aproximar o fim das férias iniciou-se também o banzo da saudade antecipada. Por fim, entre lágrimas e sorrisos, chegou o dia da viagem. O primeiro trecho Coelho Neto- Caxias, feito na carroceria de caminhão e sujeito aos riachos estarem secos. A segunda etapa Caxias – São Luís, no trem que “tanto queima como atrasa.” À terceira e última São Luís – Rio, estavam reservadas todas as expectativas pois seria feita de avião.

Alguém, amigo da família, sugeriu que levássemos uma empregada do Maranhão e indicou a candidata. Apresentou-se uma loira oxigenada, logo apelidada de dona Marta, por pretender imitar à baiana Marta Rocha, recém eleita Miss Brasil e que perdera a coroa de Miss Universo por duas polegadas a mais nos quadris.

Hora do embarque todos no aeroporto, inclusive a empregada, “mais enfeitada de que a noite do meu bem”. Para driblar a balança combinamos que os meninos levariam, como bagagem de mão, os enlatados acomodados em sacolas de tecido resistente e confeccionadas por minha adorada mãe.

Naquele tempo o trecho que iriamos fazer demorava o dia inteiro, o equipamento um DC-3, voava baixo, era lento, e fazia muitas escalas. Decolamos do aeroporto do Tirirical às 5 horas da manhã e se não houvesse atraso a previsão de pouso seria para às 17 horas no Santos Dumont RJ. Justamente neste dia houve atraso (pane) em Bom Jesus da Lapa – BA. Ordenaram que os passageiros saltassem levando as bagagens de mão. Bernardo e Luís levavam uma das sacolas, eu e Afonso a outra. O comissário de bordo, atencioso demais, se ofereceu para ajudar a primeira dupla, o Bernardo balançou a sacola soltando-a de uma vez ela que caiu no peito do comissário. Foi tiro e queda, do chão o homem, que não contava com tanto peso gritou: “quer me matar”?

Sanada a pane reembarcamos e foi possível chegar ao destino em torno das 18 horas. A demora foi acomodar todos os viajantes e respectivas bagagens nos taxis.  No apartamento a sensação inicial foi de deslumbramento pois não conhecíamos este tipo de residência. Aplacada a excitação inicial todos se recolheram, as mulheres em um quarto e os homens no outro em que foram colocadas camas beliche. O AP dispunha de dependência de empregada das quais dona Marta “aparentemente” tomou posse. Entretanto seus aposentos amanheceram desertos, sobre a cama apenas um bilhete nos seguintes termos: “Todos procuram suas melhoras eu vou procurar as minhas… ADEUS”.

Nunca se chegou a saber o que ela realmente encontrou …

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

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