Coluna do Magno: Um homem só…

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Foi encontrado morto na tarde do dia 31, último dia do ano em Coelho Neto, o Raimundinho exemplar de homens que fazem da solidão a companheira da vida. Nem todos os solitários assim se encontram por opção, muitas vezes foram abandonados por amigos, parentes, esposa e, pior, quando esquecidos pelos próprios filhos. Estes são infelizes enquanto os primeiros se bastam e são tranquilos.

Para ressaltar a bravura de seus patrícios,  grandes autores criaram heróis solitários, quase sempre, pioneiros e desbravadores. Os norte-americanos inventaram os caubóis (mocinhos) que, com a sua coragem, ajudaram a ocupar as pradarias do Oeste. Com um revolver, um rifle 44 e um bom cavalo dominavam cidades e territórios.  Livros foram transformados em filmes como: o último dos moicanos, o dólar furado e tantos outros campeões de bilheteria até chegar ao último a alcançar sucesso “ A dança com os lobos”. Também os canadenses criaram os seus mitos na ocupação territorial, os madeireiros e lenhadores.

Embora sendo um país de dimensões continentais o Brasil, que teve grandes nomes, nunca os apresentou como heróis solitários ou aventureiros, aqui predominaram “Os bandeirantes” e as “Missões Religiosas” sempre em grupos.  Nossos intelectuais preferiram a poesia, os e romances além da  literatura épica sobre a escravidão e  independência do país.

Na vida real encontramos pessoas com os mais diversos temperamentos e gostos, além de sequelas que as fazem diferentes, contudo o comportamento em sociedade é definido por cada indivíduo. Não podemos confundir os tímidos, reservados e introvertidos com aqueles que, por opção, escolheram viver isolados. Como foi o caso do nosso pranteado de hoje.

Raimundo, no registro civil, de origem muito humilde, criou-se e cresceu como o Raimundinho da Mariona. Contemporâneo de Afonso Bacelar, 1944, comungou da mesma infância no entorno do Itapirema. Enquanto o primeiro saiu para estudar fora, o segundo fazia pequenos trabalhos e biscates para ajudar a  mãe além de criar músculos que lhe deram um porte atlético. O retorno do Afonso coincidiu com a mecanização agrícola e advento das industrias. Era preciso qualificar mão de obra, com   intimidade suficiente o ex-colega colou no jovem engenheiro até especializar-se como tratorista. Já nesta época, enquanto se tornava também motorista de veículos pesados,    mostrava tendências ao isolamento. Quis o destino que as empresas fossem transferidas para os investidores pernambucanos, Dr. Afonso mudou-se para São Luis enquanto seu protegido migrava para trabalhar com Antonio Bacelar em Afonso Cunha. A amizade continuou sólida e inabalável.

Em 2003, depois de percorrer um longo percurso de trabalho e embates políticos, decidi voltar para minha terra. Político, por designo do destino, pretendia fixar residência definitiva e me candidatar a Prefeito da cidade. Tive muitas alegrias e a felicidade de receber o carinho dos conterrâneos e amigos de infância. Um dos primeiros abraços foi do Raimundinho, alquebrado pelos anos e pela dureza da vida, mostrava-se preocupado com o meu sucesso e ansioso por notícias do seu companheiro Afonso. Agora trabalhava para o meu parente e amigo Fernando Couto, uma espécie de faz tudo, tomava conta dos interesses pessoais e do hospital. Eu sabia que as coisas não se misturavam, sem a poio do Dr. Fernando contaria apenas com a amizade do seu leal empregado.

Consegui a adesão do Fernando e da maioria dos conterrâneos, governei com imparcialidade, e me acostumei aos conselhos do Raimundinho. Sempre sozinho em sua velha bicicleta, óculos na ponta do nariz me fazia parar para ouvir seus comentários, críticas e, raras vezes, elogios. Algumas vezes eu passei pelo hospital, onde sempre estava de vigia, para cumprimenta-lo. Se sentia orgulhoso por termos sido criados juntos, tinha legitimidade e me fazia muito bem a sua impertinência sincera e legítima.

A seu modo foi um homem feliz, participou das grandes e históricas transformações de nossa terra, mereceu o respeito dos seus chefes e de todos. Foi empresário, comprou uma velha caçamba que, se não lhe proporcionou lucros, deu-lhe uma nova denominação: “Sr. Raimundinho da caçamba”.

O fato de haver sido encontrado sem vida não é motivo para piedade. Todos nós, seus conterrâneos, sentimos um profundo pesar pela perda de um trabalhador honesto que honrou a comunidade. Nascemos na presença dos pais, parentes, médicos e enfermeiras, até para o registro de nascimento precisamos de duas testemunhas. Ao morrer estaremos sozinhos perante DEUS. Foi assim que o Raimundinho seguiu para se submeter ao SEU julgamento. DEUS SEJA MISERICORDIOSO!

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

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