Coluna do Magno: Tempos de Carnaval…

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Aqui chegou em companhia dos colonizadores portugueses e iniciando pela festa do entrudo. Registros dão conta de que a primeira manifestação carnavalesca ocorreu, em 1641, no Rio de Janeiro. Recebeu a influência dos ritmos afro-brasileiros, frequentou grandes salões de baile na corte, tomou conta das ruas e, embalado pelo samba enredo, aportou na passarela.

Seus precursores se reuniram inicialmente na praça onze, berço da boemia e das escolas de samba.  A construção da Avenida Brasil   fez transferir a festa, ainda embrionária, para a Avenida Rio Branco no centro da cidade. A mudança introduziu inovações como a organização dos desfiles, a premiação para os melhores sambas-enredo que, até então não seguiam uma coerência lógica, dando origem a sátiras como “o samba do crioulo doido”, de autoria do cronista Stanislaw Ponte Preta. Mesmo sem os recursos técnicos de hoje, os desfiles já arrastavam milhares de pessoas para as ruas.

O advento da televisão promoveu a terceira e definitiva alteração no carnaval do Rio, tornou-o mundialmente conhecido e cobiçado pelos turistas, hoje uma das maiores fontes de renda do município. O esplendor das cores, do luxo e a cronometragem do tempo foram os atributos que permitiram à TV transportar o desfile e as arquibancadas da Sapucaí até à comodidade dos lares de todo o universo. A praça da apoteose, de símbolo da alegria brasileira, passou a ícone do maior espetáculo da terra.

 A segunda cidade a institucionalizar os desfiles foi São Paulo, detentora de maior poder aquisitivo agigantou os números estatísticos e propiciou maior luxo ao evento, entretanto falta ao paulistano a malemolência, o ritmo e a alegria contagiante do carioca. É impossível usar termo de comparação, podemos dizer que um é máquina e o outro é gente feliz. Em ambas as metrópoles, como em todo o país, o povo preferiu a liberdade informal das ruas aos grandes salões que, perdendo a finalidade, aos poucos estão desaparecendo.

Seria injusto dizer que a terceira força está em Salvador. Não há um só baiano que não esteja envolvido, direta ou indiretamente, com a folia. Eles são únicos na forma   de brincar, inovaram e criaram ritmo próprio, inventaram o trio-elétrico, “atrás do qual só não vai quem já morreu”, aboliram os desfiles clássicos e as fantasias elaboradas. Em Salvador basta um abadá, a musicalidade corre nas veias e o carnaval não obedece ao calendário, é o primeiro a começar e o último a terminar. É difícil imaginar que Gilberto Gil esteja estreando, este ano no carnaval do Rio, mas é a pura verdade e explica a índole do povo baiano.

No Maranhão, até os anos 60, os folguedos se concentravam nos salões, com exceção aos blocos que circulavam pelas ruas de alguns municípios. O forte estava na capital com a tradição dos bailes de máscara, fofões, blocos tradicionais, tribos de índios, casinha da roça, sem esquecer os blocos de sujos. Haviam poucas e diminutas escolas, dentre as quais pontificava a Turma do Quinto, não ostentavam fantasias luxuosas, enredos ou outros brilhos. A maior concentração estava na praça Deodoro. Os clubes sociais promoviam grandes bailes de sábado à terça, à meia noite, além de oferecer   matinês e vesperais para crianças. Os salões estavam sempre superlotados de foliões.

O advento da TV Difusora deu uma nova dimensão ao carnaval de São Luís, não só por exibir os desfiles cariocas mas, por despertar o interesse do povo e de patrocinadores. As transmissões ao vivo, feitas diretamente da Avenida Pedro II, aumentaram o circuito dos desfiles e apresentações. Tudo que antes acontecia na Deodoro, por força da vaidade dos foliões e da comodidade das famílias, passou a acontecer diante das câmeras da televisão. A reação dos outros órgãos de comunicação, rádios e jornais, foi imediata e violenta. Locutores das emissoras, assustados e temendo o   esvaziamento do antigo logradouro, usavam e inventavam todo tipo de argumento para evitar o inevitável. Diziam que, no novo local, os portes estavam dando choque, que a passarela construída poderia desabar, criou-se a pergunta “onde está o carnaval?” Os radialistas respondiam – o carnaval está na Deodoro ao que os da Difusora contestavam –   está na Pedro II com iluminação especial, passarela e o povo. Prevaleceu a força da imagem.  Mais recentemente, e sem sucesso, a Governadora Roseana criou um circuito especial para turismo, tentava esvaziar o espaço determinado pela Prefeitura a quem está afeto o carnaval da cidade.

Na Coelho Neto de minha infância e juventude brincava-se nos bailes realizados em casas de família ao som das marchinhas e do aroma do lança-perfume. Flertava-se jogando serpentina e confetes enquanto as moças seguravam minúsculas máscaras que lhes davam graça e beleza. Havia festas populares no “centro-operário”,  único clube da cidade. O Carnaval de rua veio embutido nas inovações da indústria e   influência de técnicos que conosco vieram somar. Quanto aos desfiles de blocos e escolas deve-se um tributo a Benedito Duarte, o prefeito que os incentivou.  O show com grandes bandas do circuito nacional é a atração dos tempos modernos.

Conclui-se que o carnaval, como a felicidade e a alegria, é um sentimento intrínseco ao homem, imune a interferências externas.  Dependendo do nosso estado de espírito, o melhor carnaval poderá estar nas ruas, nos bailes ou desfiles, no retiro espiritual, no recinto familiar ou no silêncio dos mais puros sentimentos.

Aproveitem o tempo que resta e divirtam-se.

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

Coluna exibida excepcionalmente nesta terça (09), em decorrência de estarmos em local sem acesso a internet desde a tarde de ontem (08). 

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