Coluna do Magno: Professor de Vida

Raimundo Bacelar
Raimundo Bacelar: professor de vida

Aceitei o convite de Raimundo e em 1962, cheguei a São Luís com todo o entusiasmo e idealismo próprios dos jovens aos 24 anos de idade. Sabia que o aprendizado seria árduo e o desafio imensurável. Fui morar no bairro do Apeadouro, em casa que já havia adquirido com as   economias acumuladas e financiamento da Caixa Econômica. Como estava solteiro a época, o meu mentor e empregador passou a ser meu hóspede.

No primeiro ano fiz de tudo um pouco e continuei recebendo a ajuda do irmão Bernardo que administrava meus bens de herança em Coelho Neto. Eu e Bernardo, com diferença mínima de idade, fomos criados como se fôssemos gêmeos. Ele desistiu dos estudos um ano depois de chegar ao Rio, voltou à terra natal e começou a trabalhar por conta própria. Muito bem casado com a professora Maria José, ambos se tornaram companheiros inseparáveis de D. Maria.

Enquanto permaneci no Rio, Bernardo cuidou dos meus interesses como se dele fossem. Ao chegar a São Luís, como seria de se esperar, passei a representa-lo nos negócios. Juntos, eu apenas como seu despachante, fundamos o primeiro posto de combustível de Coelho Neto. Não esqueço as dificuldades iniciais quando o transporte era feito precariamente em tambores de 200 litros acomodados na carroceria de pequenos caminhões cuja tonelagem era insignificante diante da demanda de carga a transportar. As estradas eram de piçarra, não havia asfalto sequer  na BR 135 (São Luís-Teresina), houve uma certa viagem em que os pneus estouraram 12 vezes antes de chegar ao destino. Com determinação o trabalho continuou, vieram as ampliações com carro tanque e o posto de Buriti.

Na verdade, à medida que foram aumentando os meus encargos tive que abrir mão de coisas que antes adorava fazer. Quando cheguei encontrei instalada uma sala vizinha e igual à do Presidente, com intercomunicação interna e telefone direto. Pela manhã frequentava a faculdade, passava pelos transmissores, fazia algumas visitas a comerciantes e empresários   dando apoio aos corretores de anúncios.  Na parte da tarde participava de reuniões e atividades internas além de receber empresários e visitantes.  A noite estava destinada as atividades sociais e representativas, comparecia a eventos e solenidades em nome da empresa ou de sua Diretoria. Nos deslocamentos para casa, almoço e pernoite, repassávamos os problemas e soluções adotadas, havia, por parte de Raimundo, uma preocupação e vigilância permanentes com relação à qualidade dos serviços prestados pela empresa.

No segundo ano já concluíra o curso e livrara-me da obrigação de frequentar a faculdade, fui nomeado diretor da Difusora passamos a discutir, com mais frequência os projetos relacionados a Coelho Neto e a futura televisão. Passei a viajar mais para Rio e São Paulo discutindo orçamentos e a legislação regulamentadora da instalação de televisão no Brasil. Nas primeiras viagens sempre acompanhado do entusiasta Raimundo. Simultaneamente iniciávamos tratativas para a mudança do, ainda, deputado e Presidente da Assembleia para Coelho Neto. Dentre os assuntos sempre presentes em nossas conversas estava a política maranhense, pacientemente o meu interlocutor discorria sobre os costumes e personagens mais importantes do cenário em que eu atuaria, se eleito fosse, alertava para a necessidade de compreensão e tolerância no trato com as pessoas.

As eleições gerais se aproximavam cercadas de grande expectativa em torno da figura carismática de Jânio Quadros candidato à presidência em oposição a Henrique Teixeira Lott apoiado pelo grande presidente Juscelino Kubistchek. As candidaturas haviam sido apresentadas pelos partidos e homologadas pela Justiça Eleitoral. Meu nome estava lá precisávamos iniciar a campanha. Mais uma vez Raimundo se fez presente me acompanhando nas viagens ao interior, me apresentando e avalizando os compromissos por mim assumidos.

Estávamos certos de que havia um trabalho a continuar em nossa região (de Caxias até o baixo Parnaíba). O nome Bacelar já era muito conhecido o que me valeu votos de várias regiões, principalmente na capital, onde as ondas sonoras da Difusora davam cobertura.  Não existia horário eleitoral gratuito fato que tornava a mídia eletrônica pouco utilizada nas eleições regionais. Os carros de som também ainda eram pouco utilizados nos municípios, os eleitores eram, na sua maioria, orientados pela recomendação dos chefes políticos locais. O forte mesmo eram os comícios, palco dos grandes discursos. O transporte mais utilizado era o jipe com tração nas quatro rodas. Lembro-me do meu primeiro discurso proferido em Brejo na presença do deputado federal Cid Carvalho, um bom orador.

Muita coisa mudou, e para melhor, desde a década de 1960. Distorções foram corrigidas, atravessamos uma ditadura militar longa e sombria, retomamos os caminhos democráticos. Não podemos descuidar da educação e do exercício da cidadania para continuarmos avançando. Conforta-nos a certeza de que é possível alcançar a pátria tão sonhada.

 Fui privilegiado em tudo: a família, os amigos conquistados ao longo da jornada, mas seria imperdoável não reconhecer a importância decisiva do professor de vida Raimundo Bacelar.

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

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