Coluna do Magno: Olha a onça…

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Em Coelho Neto, até a década de 1960, ouvia-se muitas histórias sobre pescarias e animais silvestres sobretudo as onças. Os causos iam de boca em boca, povoavam as rodas noturnas e os saraus dos mais antigos. De positivo o fato de os animais ainda existiam embora já ameaçados de extinção. Até os adultos evitavam caminhos e adiavam viagens com medo da onça pintada, “a fera”, capaz de devorar homens e touros.

As expedições para caçar onça eram um grande acontecimento. Selecionados homens destemidos e  cães  especializados  de nomes exóticos  como: “quebra ferro, rompe nuvi (nuvem), corta vento, etc”…. Com data marcada e rígido cronograma, iniciava-se a grande aventura cujos relatos  hilários, iam da verdade ao anedotário. Ao sentirem a proximidade da fera os “valentes” trepavam em árvores até não haver mais lugar para ninguém subir; os cachorros, arrepiados de medo, metiam o rabo entre as pernas e uivavam parecendo dizer olha  a onça…. O certo é que o matador terminava sendo o desesperado que sem opção de fuga teria que decidir entre atirar ou morrer.

Em meados de 1946 um caboclo de nome José, morador do Cafundó, foi expulso pela mulher, desgostoso e sem destino saiu de casa (cabra macho quando sai de casa corta o punho da rede para não ter que voltar). Sem adeus nem até logo, facão na cintura pegou uma vereda cortando o São Domingos, ao atravessar uma grota foi atacado por uma onça parida que protegia a cria de poucos dias. Sem saída e não dispondo de arma de fogo, José matou a onça com o facão que portava. O filhote, passou a ser o troféu que elevou José à categoria de herói.  Por fim chegou ao ITAPIREMA onde deu o animalzinho de presente ao seu Duque. Como um rastilho de pólvora a notícia se espalhou em velocidade recorde dando origem a mais uma lenda. Dizem que a mulher valente, depois desta, foi em busca do Zé porque esse sim era brabo.

Para alimentar o animalzinho a solução encontrada foi a amamentação direta no peito de cabras o que durou pouco pois o instinto fez com que logo, logo, ele tentasse fazer do peito, e não do leite, o alimento de que precisava. Passou-se direto para carne crua cortada. Uma vez adulto passou a caçar porcos, bodes e carneiros para se alimentar passando, assim, a constituir-se ameaça tanto para os animais domésticos quanto para os humanos. Duque tomou providencias mandando construir uma jaula onde foi trancafiada até ser doada a um empresário do transporte fluvial que a levou para a cidade de Parnaíba.

A presença de uma onça adulta circulando entre as pessoas no ITAPIREMA alimentou a imaginação fértil de muitos, principalmente adversários, aumentando o folclore sobre a vida na fazenda. Mostra, também, uma realidade em que tudo girava e terminava em torno dos senhores feudais, daí o presente inusitado ao Duque. Não se tratava de subserviência e sim o retrato de uma época.

É verídica a história, não é ficção ou saudosismo evoca preocupação com o meio ambiente e ecossistema que longe de ser modismo é uma realidade da qual a humanidade não pode fugir. Mostra que a sessenta anos onças povoavam nossas matas. Se elas ali estavam é porque existiam outros animais para alimenta-las. Tudo isso foi escasseando e hoje já não vemos mais a presença da fauna tão necessários ao equilíbrio na terra.

Vamos preservar a natureza, proteger as matas e as nascentes para que no futuro as crianças continuem a contar histórias verdadeiras de vida no planeta. Para que as ONÇAS  não se transformem em lendas e saudades.

Magno Bacelar é ex-deputado estadual, ex-deputado federal, ex-vice-prefeito de São Luís, ex-senador e ex-prefeito de Coelho Neto

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