Coluna do Magno: O Vaqueiro – Um Líder

cavalgada

Desde a infância fui um aficionado por cavalos e óbvio, pelo gado. Adorava campear, aboiar e ordenhar as vacas ao raiar do dia. Em função destas atividades a minha corriola era a dos vaqueiros. Causava reboliço o fato de, frequentemente, atravessarmos a cidade tocando verdadeiras boiadas. Quando o animal era arisco ou valente encaretava-se “o bicho” reduzindo-lhe a visão e obrigando-o a andar devagar sem ameaça aos pedestres. Quantas vezes fiz parte deste cenário dispensando apenas a cachacinha costumeira por ser ainda uma criança. Enfrentar tantos perigos valendo-se apenas dos “couros” e do cavalo constituía-se ato de coragem. Para justificar a pinga o Ferreiro dizia: – o corpo humano só vai com álcool. Os “couros”, indumentária artesanal elaborada em couro de veado capoeiro, cuidadosamente curtido e amaciado com sebo de carneiro era   composta de chapéu, gibão, peitoral, perneiras e mocó, (chinelo fechado na frente), protegiam contra espinhos e galhos das árvores no mato fechado.

Por tradição e praticidade as propriedades rurais eram entregues a prepostos responsáveis pela compra de cereais, babaçu e, primordialmente da fiscalização. Na Mamorana este homem era o Frotinha, figura hilária, personagem de muitos “causos”. Contador de histórias, enganava bem, só não era mesmo um trabalhador, apoiava-se na mulher D. Mariquinha. Mantinha, em casa, alguns agregados, os famigerados paus mandados, que executavam as tarefas em seu lugar. Dentre todos, sobressaiu o Raimundo Alves, caboclo novo, forte, moreno de olhos verdes, simpático, muito inteligente e trabalhador.

Ao vê-lo ocioso o Duque, que foi excelente descobridor de talentos, não teve dúvidas convidou-o para administrar a Macaúba onde revelou-se, também, excelente vaqueiro fato que o credenciou a ser o único responsável, transferido para o ITAPIREMA, por todas as outras fazendas de gado. Os salários dos vaqueiros eram pagos com gado, modalidade denominada de laço, realizada uma vez por ano na ferra do gado. Consistia na separação das crias em lotes de cinco dentre as quais o patrão fazia a primeira escolha e o vaqueiro a segunda. Resultado – de cada cinco nascimentos vingados, naquele ano, o vaqueiro recebia o segundo melhor. Esta prática propiciou o surgimento de muitos pequenos criadores.

A designação de Raimundo Alves para responder por várias fazendas teve como consequência o surgimento de igual número de famílias, em cada sede uma nova esposa, para “vigiar por ele”, e muitos meninos para criar. Certa vez perguntei – Raimundo tu tens nove filhos? Resposta imediata: – nove eu tenho só com Alice. Não fosse o número elevado de dependentes teria sido um homem rico. Romântico inveterado, viveu e morreu como quis.

Mesmo sem escolaridade, lia, escrevia e argumentava com clareza. Carismático o nosso personagem foi um líder nato. Ao prenúncio de desenvolvimento e industrialização o “vaqueiro” arregimentou trabalhadores rurais para a criação do SINDICATO DOS TRABALHADORES RURAIS de Coelho Neto. Para auxiliá-lo na difícil tarefa de convencimento dos mais incrédulos convocou o lendário Pedro Frota, igualmente idealista, que viria a substitui-lo depois que a entidade se consolidou tornando-se irreversível. Bastaria este avanço da cidadania para torná-lo digno do reconhecimento de todos nós.

Raimundo Alves, na velhice, passou a morar em Duque Bacelar onde aos 91 anos veio a falecer. O infarto fulminante, o alcançou  cortando capim às margens rio Parnaíba.

Líderes são inexplicáveis tanto quanto o ferro que assinalava o gado de sua propriedade, identificado pela letra L. Mas como L se o seu nome era Raimundo? Minhas homenagens ao L de lembranças, liberdade e LIDERANÇA.

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

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