Coluna do Magno: o último romântico

 

Assistindo a um noticiário matutino, levado ao ar diariamente por emissora de televisão local, me causou espécie a forma grosseira com que o repórter narrava o texto: desta maneira a “apenas brasileira cidade de São Luís vai se transformar em queijo suíço”. A reportagem era sobre o péssimo estado do asfalto de ruas e rodovias. Não sou partidário e não pretendo defender o atual gestor da capital, concordo em gênero e grau com o teor da matéria, estranhei os termos depreciativos com que se referiam a nossa querida e inspiradora cidade dos azulejos. Cultura, a maneira primorosa de falar o português e o renome dos seus intelectuais conferiram a São Luís o título de Atenas brasileira. Daí a se tornar “apenas brasileira ou queijo suíço” por conta de intempéries climáticas ou má gestão há uma imensa diferença.

Na melhor das hipóteses a expressão é de mau gosto e pessimista. Por todas as cores e tons, me considero jornalista, se não por formação acadêmica, por tantos anos de militância (fundei emissoras de rádio e televisão além de jornais que fiz circular e dirigi por três décadas), defendo a liberdade total da imprensa com responsabilidade. O país está vivendo uma das piores crises de sua história e o povo, impotente, assiste a falência ética da classe política.  A auto estima muito baixa leva a sociedade a uma carência de perspectivas e notícias mais alvissareiras. O papel da imprensa é de tamanha relevância que não podemos descuidar ados termos utilizados. Eu, a exemplo do repórter, lastimo o estado de abandono a que São Luís foi relegada. A notícia foi veiculada no dia do jornalista, talvez por isso doeram os meus ouvidos, mas a crítica é uma homenagem ao jovem profissional que me chamou a atenção.

A ideia inicial foi escrever sobre o romantismo que deu a capital Timbira o epíteto de “Ilha do amor”. A praça Gonçalves Dias, com suas belas palmeiras, está impregnada de toda a poesia e sentimentalismo de um povo. Foram tantos os poetas que cantaram os encantos desta maravilhosa cidade, de origem francesa, que seria impossível enumerá-los, por isso vou lembrar uma figura do povo, o cantor Moacir Neves.

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De origem humilde, Moacir foi engraxate na infância, enfrentou todos os tipos de trabalho pesado até se tornar um extraordinário relações públicas e empreendedor vitorioso. Comunicador nato, foi proprietário de carros de som, com todos os requintes de marketing, que percorriam as ruas do nosso centro histórico. Arrendava horário nas rádios locais para apresentar shows e programas de auditório nas manhãs de domingo. Cantor à moda antiga e ao estilo seresteiro, sua figura lembrava Silvio Caldas. Foi um dos pioneiros a importar artistas de renome nacional para shows nos palcos maranhenses. Foi o primeiro “promoter” da tribo timbira.

Otimista e envolvente, cativou a sociedade e o empresariado que o prestigiavam em todos os eventos. Quando cheguei, para instalar-me definitivamente em São Luís “seu Neves” era proprietário de uma empresa de ônibus em que os passageiros eram saudados no embarque e, no trajeto, servia-se cafezinho e água gelada. Às vezes, o cantor empreendedor aparecia de surpresa e dava uma pala cantando uma ou duas canções de seu repertório. Ônibus urbano com serviço de bordo.

Cliente da Rádio Difusora, acompanhou, com muito entusiasmo, a implantação da Televisão. Era amigo de Raimundo e, agora meu camarada também. Viveu cada momento de alegria e sofrimento. Em cada frase havia uma palavra de exaltação ao novo empreendimento e no qual poucos acreditavam. Uma vez inaugurada a emissora, de sons e imagem, comprou horário para um programa semanal de calouros. No embalo das inovações e avanços do nosso Estado o irrequieto artista lançou o empreendimento “ Praia da Boa Viagem” no município de Ribamar. Com a experiência do hotel ali inaugurado voltou-se para o ramo hoteleiro e na sequencia inaugurou um no Olho D’água, e mais dois outros no bairro São Francisco.  Todos prédios projetados, modernos de categoria quatro estrelas, uma revolução na hospedaria.

Hotel São Francisco
Hotel São Francisco na década de 70

O sucesso dos hotéis era devido à maneira acolhedora e familiar com que os hóspedes eram recepcionados. Sempre que possível o próprio empresário estava na recepção para saudá-los com palavras de carinho, sempre com um largo sorriso nos lábios. Para fazer graça, costumava ler a mão dos visitantes com previsão de uma estada muito feliz e proveitosa, também nos restaurantes era comum se aproximar das mesas e perguntar: “estão lhe tratando bem”? A noite, o hóspede encontrava sobre o travesseiro bombons de chocolate acompanhados de votos de boa noite e belos sonhos.

No estilo Robin Hood, montava a cavalo e aos domingos bem cedo, percorria os bairros pobres com uma sacola cheia de balas e os bolsos repletos de dinheiro trocado para dar às crianças carentes.

Moacir Neves provou que, quando há amor, persistência e respeito ao próximo vitórias são meras consequências.  Adorava ser chamado de cantor, recebeu medalha do Mérito Republicano das mãos do Presidente da República, morreu comendador. Estilo de vida, serestas e sonhos personificam o homenageado como o Último  Romântico.

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

5 thoughts on “Coluna do Magno: o último romântico

  1. Erro grosseiro do repórter narrador. – Mas nos proporcionou uma crônica séria, bem escrita e além do mais, reconhecendo um valor que expressa a estirpe maranhense, o espirituoso Moacir Neves. Ao autor do texto presto uma homenagem de reconhecimento ao seu valor literário, repetindo do meu “Ser Maranhense” o verso que diz: “Ser maranhense é ser Gonçalves todos os Dias”. E o autor o é. Boa escrita DR. Magno Bacelar.

    1. José Cláudio! Muito obrigada por suas palavras e reconhecimento das obras que meu tio avô proporcionou aos seus! Se tiver mais informações sobre ele e sua família, por favor, compartilhe comigo, gostaria muito de saber sobre minha família! Desde já agradeço!

  2. Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o sr.Moacir Neves,trabalhei na década de 80 como cinegrafista da Tv Difusora tendo como presidente Dr.Afonso Bacelar. Lembro muito bem,como era uma briga quando estava na pauta entrevista com Moacir Neves,pela maneira como eramos tratados.Sempre tinha uma gratificação e convidamos para o almoço ou jantar.Bons tempos!

    1. Henrique! Minha mãe conta que no final do ano ele dava eletrodomésticos, entre outras coisas, aos funcionários! Que pessoa incrível foi meu tio avô, Moacyr Neves. Agradeço pelo seu comentário saudoso!

  3. Olá! Muito gratificante ver que muitos ainda lembram de meu tio avô e com carinho! Estou emocionada com esta crônica! Não o conheci pessoalmente, apenas minha mãe, que foi visitá-los em 1988, tio Moacyr, tia Maria e sua filha Marluce. Queria saber mais sobre ele, sua mãe, sua avó (Que criou tanto o tio Moacyr quanto meu avô, Mário), sua infância. Enfim, queria saber mais sobre minha família, se puderem me ajudar, agradeço!

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