Coluna do Magno: O primeiro emprego

Dr Magno 20 anos
Dr. Magno Bacelar aos 20 anos

A minha vida no Rio de Janeiro, como de resto, em toda a sua existência jamais cedeu espaço para o ócio ou à acomodação. Busquei, incessantemente, a educação e o aprimoramento que me propiciaram maior compreensão e tolerância no relacionamento com os meus semelhantes.

Aos 17 anos frequentava o colégio, mantinha aulas particulares e simultaneamente trabalhava nos Correios onde ingressei, como estagiário, com a ajuda de Raimundo Bacelar. A princípio fui Postalista posteriormente, por concurso interno, passei à categoria de telegrafista. Fui lotado inicialmente na Agência da Praça Mauá, zona portuária do Rio onde se convivia com todas as tipicidades da área, desde marujos, operadores de guindastes, carregadores, despachantes, estrangeiros, aventureiros e os gringos que desembarcavam dos navios. Isso sem falar dos malandros sempre apostos para aplicar o golpe nos incautos e desavisados.

Engraçado é que, por necessidade de ofício, ali todos se propunham a falar inglês, “macarrônico,” mas arranhavam o suficiente para sobreviver. Nas calçadas o forte era o comércio das preciosidades contrabandeadas, a famosa muamba, tudo falsificado: whisky baleado, perfume francês, ouro que virava prata fabricados no vizinho Paraguai ou mesmo no quintal dos morros cariocas. Outras figuras indeléveis nesta colcha de retalhos eram as prostitutas, mulheres e travestis exageradamente maquiadas e extravagantemente atrás de programa e dinheiro fácil. Isso tudo à luz do dia, à noite a caçada era feita nos “inferninhos” existentes, às dezenas, no entorno da praça.

Na Agência dos Correios, ponto de distribuição de notícias e informações, atendia-se a toda essa gente sem distinção. Às vezes tinha-se que interpretar os seus sentimentos e transformá-los em cartas e telegramas a serem remetidos às mais diversas partes do mundo. Para entender toda essa complexidade de hábitos, atitudes e sentimentos é necessário ter a consciência de que a área portuária se constitui em seguimento do universo dentro de nossa cidade.

Localizado à Praça Mauá, esquina com a Avenida Rio Branco, o meu trabalho estava defronte do edifício A NOITE, badaladíssimo por sediar em seus últimos andares a famosa Rádio Nacional. À época, como já foi dito, o rádio dominava as comunicações no Brasil capitaneado pela emissora oficial, nossa vizinha. Estavam na moda os programas de auditório animados por Chacrinha, César de Alencar, Ari Barroso e Paulo Gracindo. Não eram só os shows, a emissora produzia os humorísticos como o “Balança mais não cai” e as novelas. Em decorrência de tantas atividades a movimentação de artistas, apresentadores, atores além dos fãs, as “macacas de auditório,” era incessante e mais um agregador de exotismos a me servirem de ensinamentos para os embates pela vida a fora.

Como se não bastassem os compromissos, mencionados inicialmente, resolvi fazer exame para o Centro Preparatório para Oficiais da Reserva do Exército Brasileiro – CPOR. Aprovado, servi no o Batalhão de Cavalaria de São Cristóvão. Foram dois anos e meio de muito sacrifício pois não me afastei das atividades que já vinha exercendo. As aulas eram somente aos domingos, feriados e férias. Deixei de compartilhar alguns momentos de lazer com os irmãos para conquistar uma vitória e um título a mais.

É difícil descrever a emoção experimentada ao assumir o primeiro emprego. Um misto de orgulho e angústia ante o desafio e a independência, como a insegurança dos que começam a andar sozinhos. A expectativa de receber o primeiro salário e os planos para utilizá-lo sabiamente. Imagens e sonhos que embalam e inebriam jovens idealistas. Recordo-me do primeiro paletó comprado na Ducal, loja de departamentos, com o aval do Senhor Aymar Rodrigues, amigo de Raimundo.

São privilegiados, ainda hoje, os jovens que têm a benção das oportunidades que a vida me ofereceu. É necessário aproveitá-las com afinco e seriedade, não desperdiçar ou abrir mão de nada. Me orgulho muito dos caminhos que percorri e nos quais não houve lugar para mágoas ou arrependimentos. Hoje, aos 77 anos, aqui estou feliz por me sentir útil e em atividade. Já pensou na satisfação de poder escrever e lhes contar esses fatos.

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

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