Coluna do Magno: O lendário Cafeteira…

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Epitácio Afonso Pereira, paraibano, funcionário do Banco do Brasil transferido para o Maranhão, aqui iniciou a vida pública adotando o apelido Cafeteira como nome político. Ainda estudante no Rio e de passagem por São Luís, conheci-o nos estúdios da Rádio Difusora do Maranhão onde concedia uma entrevista.

Inteligente, carismático e ousado sempre escolheu os adversários, principalmente quando, ainda iniciante, precisava combater os mais fortes para se projetar. Na época em que o ouvi, a vítima era o então Governador Newton de Barros Bello, advogado combativo que, iniciando como vereador de São Luís passou pela Câmara Federal e, no ocaso do Vitorinismo, se elegeu Governador do Estado. Carrancudo, de rosto redondo e olhos gateados ostentava o apelido de “cara de onça”.

Cafeteira imaginou uma maneira de polemizar e escolheu a régua, sim a régua escolar, como arma de ataque. Com um simples carimbo de borracha, imprimia uma cara de onça com a frase “para dar ripada na onça” e conseguiu envolver o povo a quem distribuiu milhares de exemplares do seu único instrumento de campanha. Na maioria das vezes ele mesmo entregava repetindo, em voz alta a frase, ao tempo em que apelava para que as pessoas o ajudassem levando e distribuindo aos amigos. Foi o carro chefe de uma campanha, tanto hilária quanto irreverente, que em 1962 propiciou ao seu criador uma suplência da representação maranhense na Câmara Federal.

Contestando e seguindo a mesma linha populista, venceu as eleições de 1965 para a Prefeitura da capital maranhense. Depois da posse enfrentou problemas com a Justiça tendo o mandato ameaçado durante quase toda a gestão. Adversário do Governador Sarney e dizendo-se por ele perseguido, permaneceu acampado no gabinete da Prefeitura enquanto durou a querela. Polêmico e contraditório nas atitudes oficiais, soube debitar ao adversário maior, o insucesso administrativo. Tal como Jânio Quadros, assinou atos inócuos e folclóricos como aquele em que proibiu o uso de máscara nos bailes carnavalescos, uma das maiores tradições da cidade. Como vítima, continuou em evidência enquanto Sarney passou a ser o filão de votos para um adversário que não lhe deu tréguas enquanto conveniente.

Excelente contador de estórias, quase sempre de sua própria autoria, em seus comícios não eram admitidos animadores ou artistas, ele mesmo fazia a festa. O alvo era o cacique Sarney que não dava respostas às ironias e ofensas e destacava o iniciante Sarney Filho para tal fim. Irritado Cafeteira, na televisão ou nos comícios, contava a história de um beberrão que não sendo atendido em uma promessa falou no boteco que iria destruir o Santo padroeiro a pauladas. Cioso e preocupado, o sacristão correu à Igreja e substituiu a imagem por uma menor. Ao se deparar com o novo cenário o bêbado gritou: vai chamar o covarde do teu pai porque eu não bato em criança. Dizia, também que o Sarney era como um gato, se aproxima quando tem interesse e só se esfrega em nossas pernas para limpar o pelo. Quando o oponente era Roseana ele a chamava de “a moça” ridicularizando a sua importância. Onde ela inaugurava o Farol da Educação, com grande estardalhaço, ele vinha a seguir dizendo estar a procura do Farol mas que só encontrava um “foquito”.

Se elegeu deputado federal mais votado três vezes, 1974, 1978 e 1982, jamais teve chefes políticos a seu lado, tão pouco gastou dinheiro. Tudo era conseguido na empatia, contando piadas e causos que inventava além das bolsas de estudos federais que distribuía na periferia da capital. Pedia votos entrando de casa em casa, indo à cozinha, mexendo nas panelas e conversando.

Certa feita perguntou a uma dona de casa em quem ela ia votar para deputado ao que a boa senhora respondeu: vou votar no Magno Bacelar, abrindo um largo sorriso. Cafeteira parabenizou-a dizendo que eu era gente boa e seu amigo, mas que ela poderia votar em nós dois pois na cédula havia espaço para dois candidatos. E não só ensinou como deixou uma cédula preenchida (no quadradinho superior você escreve MDB (Magno Duque Bacelar) o partido dele e na linha de baixo escreve Cafeteira (o nome do candidato).

Onde houvesse mais de duas pessoas ele se aproximava contando piada ou dizendo “gente eu sou um caminhão velho sem bateria (dinheiro) vocês me empurram, eu pego, vocês pulam em cima e eu carrego todo mundo”. Com relação às bolsas de estudo, à época cada deputado recebia determinada quantidade para distribuir entre seus eleitores, o que só interessava aos deputados de estados pobres. Cafeteira permutava por bolsas, as dotações orçamentárias que deveria destinar aos municípios, e as trocava por votos no Maranhão.

Mesmo com todos os dotes que Deus lhe deu, Cafeteira somente alcançou os cargos mais elevados quando esteve aliado a Sarney. Assim foi eleito Governador e, por duas vezes seguidas, ao Senado da República. Cada um, a seu modo e estilo, escreveu   sua história. Chegam juntos ao final da carreira política. Só o tempo poderá julga-los com imparcialidade e dizer quem foi algoz de quem.

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

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