Coluna do Magno: Difusora Internacional…

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Nestes tempos cabeludos, de crises e pessimismo é preciso que busquemos meios de minorar os efeitos do pesadelo que estamos vivendo e que espero seja curto. Na época da ditatura militar, em que a censura e a delação imperavam, o compositor Geraldo Vandré lançou uma canção, uma verdadeira poesia de protesto à qual intitulou de Caminhando ou “Para não dizerem que não falei de Flores”.

Hoje a mídia só veicula violência, corrupção, desvio de conduta, pedaladas e outras barbáries através das redes sociais incluindo o whatsapp. Políticos enxovalhados, cuja maioria engorda a vasta relação de processados por atos ilícitos, agora querem mostrar serviço. Deputados e Senadores não desgrudam dos microfones e, como mariposas, buscam a luz dos holofotes. Resgatou-se a figura do “papagaio de pirata”, aqueles que não desgrudam do ombro daqueles que estão em evidência.

Ontem (18/04/2016), no circo armado na arena do plenário da Câmara, ficou sobejamente evidenciado o despreparo dos deputados que brigavam por um lugar próximo ao microfone de votação para mostrar cartazes que mostravam o quanto eram brasileiros e paladinos da Justiça. E as declarações de voto, invocaram os mais esdrúxulos motivos para serem notados. Que lástima os nossos atuais representantes! Seria cômico se não trágico. De qualquer forma surgiu uma luz no fim do túnel, o pesadelo está chega chegando ao fim, é hora de despertar sob uma aurora de luz e esperança! Prometi fala de amenidades. Por isso vou contar uma estória:

Antes do advento dos satélites, o prestígio das emissoras de rádio se media, também, pela potência dos seus transmissores assim como pela variedade das ondas utilizadas porque isso refletia, de maneira direta, na dimensão da área de cobertura. A Difusora transmitia em ondas médias, tropicais e curtas sendo que as ondas curtas alcançavam a maior distância. À época ainda não existia a Frequência Modulada (FM), para cobertura meramente local e da qual, mais uma vez, fomos os pioneiros no Maranhão.

Na era de ouro do rádio surgiram os ouvintes a longa distância. Ao redor do mundo haviam os aficionados que enviavam fitas gravadas reproduzindo programas por nós levados ao ar, solicitavam confirmação e remetiam selos para a resposta. Recebíamos pôsteres maravilhosos dos países europeus. Um intercambio riquíssimo em cultura e entretenimento. Estes fatos, dentre outros, somados à vaidade e ao orgulho, elevavam a nossa moral perante os concorrentes e nos levaram a criar um programa direcionado aos ouvintes do exterior.

Sem levar em conta que o ambiente de rádio e televisão agrega os mais diversos tipos, aqueles que se presumem talentosos, artistas ou técnicos,  fã clubes, costumam gravitar em torno dos astros. Na Difusora o fato era agravado pela receptividade encontrada junto a Bernardo Almeida, Genes e Magno Bacelar. As pessoas se aproximavam, faziam uma gentileza aqui e ali, daqui a pouco estavam na folha apadrinhados por um dos três corações paternalistas. Foi assim com um andarilho argentino, muito simpático e inteligente, que passou a ser visto diariamente próximo a Genes coincidentemente com a idéia de lançarmos o programa internacional. Um belo dia fui convocado para uma reunião do triunvirato que resultou no emprego para o hermano argentino. Nascia o programa Difusora Internacional, com roteiro especial, levado ao ar todos os dias à partir das 23 horas, divulgava notícias do Brasil e do Maranhão além de divulgar as nossas músicas e ritmos a cargo do sonoplasta Elvas Ribeiro, o indelével Parafuso.

O hilário do programa internacional era o apresentador Juan, que logo aprendeu a malandragem dos mais antigos notadamente para pedir adiantamento salarial (o vale). Ficava me cercando sem nada conseguir, fato que o levou ao Diretor Administrativo, Bernardo Almeida, para lastimar o insucesso da abordagem porque o homem era difícil – (“manana, temprano; em la tarde, reunion; em la noche, mui puto, voy a morrir de hambre”).  Traduzindo: só eu autorizava o adiantamento salarial e ele não poderia abordar-me por que pela manhã era cedo (inoportuno), à tarde eu estava em reunião e à noite muito puto, enquanto isso ele morria de fome.

O argentino é uma pequena mostra do que ocorre no mundo, do faz de conta e sonhos, que envolve o meio artístico. Isso se deve à sensibilidade daqueles que tem o dom de ver, sentir e compreender mais que as pessoas comuns. Durante os anos que tive a alegria de conviver com intelectuais, jornalistas, radialistas, astros de televisão e demais obreiros da comunicação conheci tanta gente especial que seria impossível mencionar a todos. Há, entretanto, aqueles que marcaram presença e permanecem entranhados por muito tempo em nossas lembranças como o caxiense Luis Alves de Lima, “o amigo da onça”, o  “Ferra Braz” ajudante de Genes e o imitador de Ray Charles que não falava uma única palavra em inglês mas imitava o cantor norte-americano.

Hoje , segundo McLuhan , vivemos em uma aldeia global em que os fatos ocorrem e são divulgados simultaneamente, um mundo previsível em que não há lugar para surpresas ou angústias, não há espaço para elucubrações. Entretanto, até o final do século vinte programas com o Difusora Internacional foram elos de ligação entre povos muito distantes levando-os a sonhar com o desconhecido, cujas imagens eram criadas pela imaginação  num misto de poesia e cultura…

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

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