Coluna do Magno: Desaparece uma estrela…

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Cheguei ao Rio de Janeiro num final de tarde, março de 1955. O pouso efetuado no aeroporto Santos Dumont, o mais central dentre tantos que conheci mundo afora. A paisagem emoldurada pelo pão de açúcar, o Corcovado e o “dedo de Deus”, ao fundo, ficou entronizada, para sempre, dentre doces e nostálgicas lembranças. Enquanto o sol, se esgueirava nas sombras as imagens se confundiam e fundiam com os meus mais belos e audaciosos sonhos de adolescente. Imaginei que o sol se recolhia para, fortalecido pela suavidade da noite, voltar mais esplendoroso na manhã seguinte disposto a iniciar um novo ciclo da vida. Naquele momento mágico tive a intuição de que o destino me reservara um caminho de lutas constantes, muitas vezes amargas, mas que terminaria, como aquele entardecer da baia da Guanabara, suave e tranquilo.

O mundo vivia sob o impacto do fim da Segunda Grande Guerra. Além da redistribuição geográfica considerável, entre as potências vencedoras, a violência e a barbárie durante o conflito mudaram radicalmente a concepção de vida dos seres humanos. Surgiu, e agigantou-se, um sentimento de que a vida precisaria ser vivida com mais urgência e intensidade. Não havia legislação tão elástica para normatizar os novos comportamentos e aspirações. Movimentos por reformas invadiram as ruas em todos os continentes. O mundo, ainda confuso, clamava por urgência inspirando  jovens e hippies que mesclaram música com trabalhos  artesanais. Mudou, radicalmente, o relacionamento familiar, quebraram-se os tabus, instalou-se o caos na higiene, modo de vestir roupas rotas, cabelos desgrenhados, dormir ao relento, tudo orquestrado pelo o slogan: Pace and love (paz e amor).

Durante o embate mundial o rádio tornou-se o milagroso elo de ligação entre o front de batalha e os familiares angustiados pela incerteza. Firmou-se como fonte de entretenimento levando música e mensagens incentivadoras aos combatentes enquanto os civis se reuniam em torno dos receptores ansiosos por notícias dos entes queridos. Selada a paz, o habito consolidou o  velho companheiro em definitivo. O RÁDIO transformou-se no maior condutor de massas. Floresciam os programas de auditório, com apresentação de artistas e comandados por animadores como César de Alencar, Chacrinha e Ary Barroso. Foi então que, inspirado em cantores como Silvio Caldas e Orlando Silva, surgia o primeiro “show man” brasileiro.

Nascido em Niterói – RJ,  de família de músicos e instrumentistas, Cauby Peixoto começou a trabalhar muito cedo, para ajudar a mãe, tentou várias atividades mas o seu destino seria a música que o consagrou. Controvertido e extravagante nos gestos e no vestir, tornou-se, desde logo, o mais discutido e badalado cantor nacional. Nada disso foi decisivo para a notoriedade alcançada, sobravam-lhe talento, musicalidade e voz grave e aveludada. A todas as pessoas a quem se dirigia chamava de “professor” o que lhe valeu o apelido.

Atuou em bares e casas noturnas do Rio e de São Paulo, teve o maior fã-clube, vibrante e arrebatador, quando se apresentava em rádios ou shows abertos em praça pública, o professor tinha as roupas rasgadas pelas admiradoras apaixonadas. Muito requisitado Cauby teve a agenda mais disputada dos anos 50/70. Cantava em inglês, fez temporadas nos Estados Unidos, gravou álbuns em inglês que fizeram sucesso na terra do Tio San. Se apresentou ao lado de Nat King Cole.  As duas maiores revistas, da época, Time e Life deram-lhe grande destaque reconhecendo-o como o Elvis Presley brasileiro. No Brasil também mereceu o reconhecimento de grandes compositores, dentre os quais Caetano Veloso, Roberto e Erasmo Carlos, Tom Jobim, que criaram músicas especialmente para o lançamento do álbum “Cauby, Cauby” na década de 80. Mantinha público cativo nas boates e night clubs em que se apresentava chegando, em sociedade com os irmãos, a ser proprietário de uma destas casas noturnas em Copacabana, Rio. Se apresentou em todas a grandes cidades e capitais brasileiras sempre arrebatando multidões.

O fenômeno Cauby foi de tamanha grandeza que atravessou seis décadas, resistindo a influencias estrangeiras e outros modismos, sustentada pelo talento e voz impecável. Atualmente fazia uma turnê, com Ângela Maria, comemorativa dos 50 anos de carreira e se apresentava num dos mais frequentados bares da Avenida São João. Deixou um álbum inédito a ser lançado em breve por Angela Maria (a sapoti da radiofonia nacional), com quem compartilhou muitos sucessos.

As estrelas não morrem, se escondem por momentos, Cauby “pediu um tempo”, ressurgirá sempre, onde predominarem os sentimentos de amor e saudade.

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

Volta-te, Senhor, e livra-me; salva-me por causa do teu amor leal. Salmos 6:4

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