Coluna do Magno: Bernardo Coelho de Almeida

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Conquistar bons amigos não é apenas sabedoria, é também, uma dádiva que raramente recebemos. Quando começou a trabalhar na imprensa ludovicense, Raimundo Bacelar recebeu essa graça ao conhecer Bernardo Almeida. O convívio diário nas oficinas de jornais os aproximou e transformou em amigos fraternos.

Bernardo Almeida era o nome jornalístico do poeta maranhense Bernardo Coelho de Almeida nascido no ano de 1927. Oriundo de família ilustre e numerosa da cidade de São Bernardo no Baixo Parnaíba, fronteira leste de nosso Estado. Aos 11 anos, como interno no seminário Santo Antônio, começava uma trajetória brilhante longe da terra natal e da família. Enquanto estudante transferiu-se para Parnaíba e depois Fortaleza, vindo a concluir o secundário no Colégio Maristas de São Luís. Na imprensa escrita, iniciou no Jornal do Povo, passando por O Imparcial, O Estado do Maranhão além de outros, fundou e dirigiu revistas.

Convidado por Raimundo, foi um dos fundadores da Rádio Difusora do Maranhão emprestando o seu talento e brilhantismo a quase todas as atividades da emissora. Numa época em que não existiam agências de publicidade, foi o pioneiro na construção de textos e jingles publicitários; criou slogans, logotipos e marcas para empresas e poder público; foi locutor, apresentador e entrevistador. Tornou-se um dos Diretores e sócio da Rádio Difusora do Maranhão. Excepcional cronista, escreveu “A Difusora Opina,” o editorial que cantou os encantos e retratou os problemas do nosso dia a dia. Apresentado diariamente, às 12 horas, o programa alcançou tamanha importância que chegou a influenciar a vida social e administrativa do Maranhão. Havia um locutor especialmente destacado para o horário mas, quando lida pelo próprio autor, ganhava em interpretação e havia maior brilhantismo.

Os funcionários da emissora passavam por estágios e avaliações antes da admissão, havia uma comissão para isso e da qual fazia parte o poeta Bernardo que, muito humano e sensível, funcionava mais como padrinho do que como examinador. Adorava orientar os principiantes e quebrar arestas entre os veteranos. Certa feita apareceu na cidade um andarilho chileno, muito simpático e amável, para ajudá-lo e dar um certo charme à programação e o nosso intelectual criou um programa, na madrugada, intitulado Difusora Internacional.

Fiz parte da maravilhosa equipe de idealistas construtores de sonhos, coordenada por Raimundo Bacelar, que consolidou a liderança da rádio e partia agora para algo muito mais audacioso, fundar a televisão do Maranhão. Sim, a televisão do Maranhão porque, a primeira do Nordeste subdesenvolvido, instalada em meio a incredulidade e pessimismo de todos. Raimundo, Bernardo Almeida, Genes Soares, eu e todos os funcionários exalávamos otimismo e confiança. A sociedade admirava a audácia mas bem poucos acreditavam, como a Escola de Samba – Turma do Quinto que criou o samba-enredo com estribilho “Quem viver verá” – “TV Difusora funcionar.” Previsão acertada e feliz porque fora inaugurada na data prevista com o slogan de Bernardo Almeida: TV Difusora, testemunho vivo do arrojo e do progresso do povo do Maranhão.

Fui privilegiado pela amizade e convívio que perdurou por mais de vinte anos, com o imortal escritor Bernardo Almeida. Companheiros na rádio, artesões na televisão, colegas na Assembleia Legislativa, deputados estaduais na difícil época da Ditadura Militar, e no jornal O Estado do Maranhão. A minha família teve a honra da amizade da família Almeida e recebeu deste inesquecível amigo, homenagens que eu gostaria de retribuir, se tivesse um mínimo da sua competência e brilhantismo.

Criatura humana dotada de sensibilidade incomum, o meu homenageado desempenhou, ainda, funções executivas. No Governo Castelo foi subchefe da Casa Civil, adido na embaixada do Brasil no Peru. Excelente orador, foi também ensaísta, escritor e membro da Academia Maranhense de Letras.

Eu costumava chamá-lo – Poeta do Amor e da Saudade – porque    não existe poesia sem ternura e saudade.

A memória de um grande homem vai além da morte, por isso não estou, neste dia de Finados, reverenciado apenas o morto mas o talento, a competência e a lealdade.

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

2 thoughts on “Coluna do Magno: Bernardo Coelho de Almeida

  1. Isso é apenas mais uma prova da generosidade e humildade de Dr. Magno. Felizes são aqueles que sabem acolher sua amizade na verdadeira essência da palavra e, o Dr. Bernado teve o privilégio de experimentar esse sentimento.

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