Coluna do Magno: A rotina da vida no Rio de Janeiro

Luis e esposa, Jose e esposa, Flory e Afonso
Na foto Luis Bacelar e esposa, Flory Bacelar, José Bacelar e esposa: destaque para Afonso Bacelar em pé, ainda adolescente

Aplacadas as emoções da chegada e da sublime fascinação pela cidade haveríamos de construir a rotina estudantil. Iniciamos por conhecer melhor o apartamento e acomodações. O quarto feminino era composto de duas camas de solteiro,  guarda roupas escrivaninha e penteadeira; no dos homens, mais numerosos, duas camas beliche e guarda roupas de  quatro portas (uma para cada), distribuídos por sorteio; na sala estavam um sofá de três lugares, uma mesa de centro sobre a qual ficava o rádio e a maior com dupla função (jantar – estudo), a geladeira também estava na sala, aliás eu era encucado com a anatomia da maçaneta  e com a marca  KELVINATOR da geladeira;  na cozinha apenas o fogão, uma mesa de apoio e a pia. Finalmente a área de serviço com um tanque e varal de cordas. Não dispúnhamos de máquina de lavar roupa nem de televisão.  Tínhamos o essencial para estudar e viver com dignidade.

Por determinação de D. Maria fomos matriculados nos mais renomados colégios do Rio.  José estava na  ENA, Liz  concluíra no Sacre-Coeur e preparava-se para o vestibular, Flory continuaria no mesmo colégio de onde a irmã acabara de sair, eu no Colégio Santo Inácio de Botafogo, Bernardo, Luis e Afonso no Colégio Santo Antonio Maria Zacarias do Catete. As distâncias e facilidades de acesso eram mais ou menos iguais para todos. De posse do calendário escolar e da relação de material passamos a visitar livrarias e lojas especializadas aproveitando, ainda, para conhecer as maravilhas e o mecanismo da cidade. Logo se iniciaram as aulas e o sufoco.

O choque causado pela diferença de nível no ensino foi, inicialmente, avassalador. Professores de línguas inglês e francês, por exemplo, entravam e saiam de sala falando aquele idioma. Os alunos que ali haviam iniciado estavam mil anos à nossa frente. Tivemos que tomar aulas particulares para resgatar o que havíamos perdido e acompanhar as aulas agora ministradas. Foi uma verdadeira saga, uma epopéia sem tréguas. Certa feita o professor de inglês se dirigiu a mim nos seguintes termos: “Bacelar preste atenção a aula que não vou lhe arguir, tenho notado que você fica o tempo todo rezando para que eu não lhe pergunte nada.” No decorrer do semestre ultrapassei estes obstáculos e logrei aprovação no fim do ano mas, muitas vezes, pensei em desistir. Quem melhor se adaptou foi o Afonso que muito pequeno, menos de onze anos, iniciava o primeiro ano ginasial.

 Chegamos de luto vestindo preto total, hábito fora de moda nos grandes centros, a indumentária aguçava a curiosidade e  o sarcasmo dos colegas. O José, por estar residindo na faculdade de agronomia, recebeu o apelido de “vaca preta” e o Luís, que ali fez um curso de curta duração, de “bezerro preto”.

Liz e José passaram a trabalhar: ela no Ministério da Justiça e ele no IAPC  à tarde, tendo que vir e voltar diariamente para o Km 47. Os mais jovens à partir de Luís, Bernardo, Flory, Afonso e eu apenas estudavam.

Quando tínhamos uma folga, com aquele dinheirinho amealhado em Coelho Neto, as vezes íamos ao cinema, fazíamos passeios de bonde. Se algum dos irmãos já estabelecidos na vida aparecia em viagem de negócios, tínhamos algum extra para visitar o zoológico, a ilha de Paquetá, Corcovado e outras encantadoras plagas cariocas. A TV era, sem dúvidas, a grande atração mas a cobertura reduzida face ao pequeno número de receptores instalados. Quem, de fato, continuava comandando a massa eram as emissoras de rádio, levando ao ar excepcionais programas de auditório, humorísticos, novelas e noticiários. Pelo telefone, os ouvintes participavam intensamente da programação atraídos por farta distribuição de valiosos prêmios. Sem medo de errar, posso afirmar que o rádio da sala foi o grande e fiel   companheiro.

Aportamos à baia da Guanabara em março de 1955, na hora certa, simultaneamente com as grandes transformações do pós-guerra marcado por avanços tecnológicos, quebra dos tabus, revolução social e cultural sobretudo na música: os “anos dourados”. São dessa época o radinho de pilha, sempre na mão tal qual o celular e/ou tablet de hoje; os movimentos hippies, as bandas de Rock, os Beatles, Elvis Presley, Rolling Stones. Aqui no Brasil surgia a bossa-nova, o tropicalismo a Jovem Guarda e os grandes festivais.

Não se constituiria nenhum exagero reconhecer que, tão importante quanto a grade curricular, foi vivenciar e participar de toda essa indescritível transformação: QUANDO A JUVENTUDE QUEBROU TODAS AS AMARRAS.

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

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