Coluna do Magno: A greve de 1950 e suas consequências

Depois do internato nos Maristas, passamos a morar em pequenas pensões familiares. Agora hóspedes de D. Vani, conterrânea e amiga de nossos pais, tínhamos como companheiro de pousada o Francisco Zeferino de  Souza Neto, “o Francisquinho do Milton”, bom colega e excelente amigo de saudosa memória. Aclimatados à vida urbana de São Luís, os estudos se tornaram rotina. A concepção infantil não nos permitia observar e entender a movimentação política que se desdobrava envolvendo e despertando a paixão de todos: jovens e adultos, citadinos e interioranos, esperançosos de grandes mudanças, uma verdadeira revolução democrata.

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O ex-senador Vitorino Freire

O Maranhão, diferentemente dos outros Estados, tende a perpetuar lideranças e comandantes. Assim foi desde a Independência do país em relação a Portugal, fomos o último a aderir, passando por Vitorino Freire e José Sarney que, individualmente e por mais de quatro décadas, foram os donos de nossos destinos.

As oposições da capital esboçavam reações contra o Vitorinismo, responsável pela política retrograda do coronelismo e dos currais eleitorais. Suas ações não encontravam ressonância no interior do Estado, onde os coronéis eram os proprietários das terras, dispunham da polícia, da coletoria, das nomeações, enfim, de toda a força do Governo do Estado para amedrontar e coagir. Sem coesão, os líderes oposicionistas não eram uma referência confiável para os idealistas ou descontentes do interior. Sem ter a quem recorrer, estes se sentiam órfãos de uma liderança.

Para encarar e erradicar os métodos do pernambucano Vitorino Freire, o manda chuvas, seriam necessários mais que o discurso vazio e artigos em jornais, urgia ação efetiva e alinhamento de ideias, união em torno de um nome capaz de agregar e resgatar a confiança dos incrédulos. Em 1950/51 ocorreu a maturação do processo e surgiu o nome de consenso: Saturnino Bello (Satu Belo). Já havia ocupado o Palácio, conceituado, de família tradicional e autêntico, personificava a legitimidade requerida para o embate. O engajamento de todos foi espontâneo, transmitindo credibilidade. Satu Belo ganhou no voto mas veio a falecer antes da diplomação ensejando o início de ima interminável gincana jurídica.

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Jazigo de Saturnino Bello, no Cemitério do Gavião em São Luís

A morte do oposicionista vitorioso foi o estopim para a comoção popular. Vitorino, amargou derrotas no Tribunal Regional Eleitoral, apelou para a instância superior no Rio de Janeiro, onde desfrutava de muito prestígio e, no Tribunal Superior Eleitoral, conseguiu reverter a situação diplomando seu candidato, o desconhecido Coronel Eugênio Barros. Até chegar a esse veredito, entre uma apelação e outra, transcorreu um longo tempo durante o qual vários deputados, Presidentes da Assembléia, se sucederam no comando do Estado. Dentre aqueles que assumiram o Governo, figuram Cesar Aboud e Eurico Ribeiro como os mais duradouros.

Quando, finalmente, veio a decisão e ordem para empossar o Sr. Eugenio Barros, o povo da ilha se rebelou contra aquilo que denominou “violência jurídica”. De surpresa e no anonimato o diplomado entrou no Palácio dos Leões. Restava impedir a posse a qualquer custo. A praça João Lisboa, símbolo da resistência, transformou-se em quartel general, passando a ser denominada A Praça da Liberdade, onde os revoltosos mantinham-se em vigília cívica. Oradores se revezavam na tribuna insuflando o povo a invadir o Palácio. Passeatas foram postas em marcha, policiais se amotinaram. Instalou-se o caos, os sindicatos declaram greve geral imobilizando a cidade.

O Ministro da Justiça veio a São Luís para negociar a paz, mas o povo não cedeu, obrigando o Governo Federal a colocar o Exército nas ruas. Instalou-se o Paralelo 38 na esquina da Igreja da Sé isolando a Praça Pedro II protegendo-a de possíveis invasões. Para fazer frente aos movimentos populares e até mesmo insurretos da Policia os partidários de Vitorino solicitaram a ajuda de chefes políticos do interior. Muitos deles enviaram caminhões lotados de caboclos para, aquartelados no Palácio, garantir a integridade do Governador. Foi um terrível erro pois alguns destes socorros, mal informados, tentaram atravessar o Paralelo 38 sendo recebidos à bala. Registraram-se óbitos de inocentes que, sequer, sabiam os verdadeiros motivos pelos quais foram trazidos à capital. Muitos saltaram dos caminhões em movimento e, desorientados, tentaram regressar a seus municípios como puderam, muitas vezes a pé, demorando meses para chegar em casa.

As oposições também recorreram ao expediente de recrutar simpatizantes para fazer número e impressionar as autoridades federais que aqui estavam, como observadores. Ficou no folclore o telegrama passado, de Barra do Corda, por um impostor. Teor do telegrama:  – “Estou seguindo para esta capital acompanhado de oito mil homens saudações General Bastos”. Falso o teor do telegrama e a patente do subscritor.  (Tratava-se do Bastinho que estava vindo a São Luís acompanhado de oito integrantes da família Milhomem).

Todo movimento cívico resulta em avanço democrático. O Senhor Eugenio Barros tomou posse para um mandato truncado, sem condições de governar. O movimento de 1950 foi uma grande conquista popular. Foi o último coronel a assumir o Governo do Maranhão, iniciava-se o declínio do pernambucano Vitorino de Brito Freire.

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

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