Coluna do Magno: Genes, um gênio

A memória de um povo é o fundamento para o futuro, sendo a escrita uma das maiores responsáveis pela disseminação da cultura e costumes através dos tempos.  Utilizando os hieróglifos os egípcios nos legaram um grande patrimônio cultural e documentos históricos tornaram Roma a cidade eterna.

A pesquisa da origem é tão apaixonante quanto a busca pela pedra filosofal e o segredo da longevidade eterna. Recursos para pesquisas e escavações em sítios arqueológicos   não tem limites e são utilizados em todos os continentes. No final da última semana uma emissora de TV local mostrou longa reportagem sobre descobertas valiosas ocorridas em escavações que estão sendo realizadas na baixada maranhense.

Em nossa querida Coelho Neto não existiu, nem existe, preocupação em preservar a cultura, documentar fatos, ou preservar o patrimônio histórico. Não se encontra um único marco ou referência ao passado. Nem mesmo a grande transformação econômica decorrente da implantação do maior polo industrial do Nordeste, à época, tem registro oficial ou documentação nos arquivos municipais. A população desconhece os verdadeiros empreendedores, os Bacelar, que por amor à terra natal, tudo construíram em benefício de seus conterrâneos.

O objetivo  dos  irmãos era o engrandecimento de uma região e do próprio Estado e  foram além, fizeram história que precisa ser contada e reconhecida. Há honrosas exceções a historiadores como o intelectual e conterrâneo Milson Coutinho cujo trabalho brilhante e valioso, não contou com apoio dos poderes públicos. Outro pesquisador digno de destaque foi Antonio Nonato Sampaio, o professor “Nonatinho” que, de forma amadorística, chegou a acumular informações valiosas para  as futuras gerações. Não teve o incentivo necessário e o precioso acervo perdeu-se em decorrência de sua morte prematura.

Genes Soares
Genes Soares

Recentemente tive a grata satisfação de receber uma ligação oriunda de Teresina. Uma professora e pesquisadora, chefe de equipe encarregada de resgatar a memória e o trabalho de  Genes Soares. Buscava subsídios sobre um dos mais talentosos artistas  contemporâneos  que, por circunstancias  alheias a sua vontade, legou a maior parte de sua obra ao nosso Estado.  Fiquei feliz com a iniciativa da Universidade Piauiense.

Genes Celeste Soares, nascido em Teresina e de origem humilde, trabalhou para ajudar no sustento da família, enquanto estudava para bacharelar-se em Direito pela Universidade do Piauí. Vocacionado para as artes, teve que se submeter as condições da época em que as Universidades nordestinas não ofereciam opções de cursos. Advogado, jamais exerceu atividade jurídica, direcionou toda sua iluminada inteligência para as artes plásticas.  Criou projetos avançados para residências, escritórios, comércio e indústria contribuindo para a erradicação de conceitos ultrapassados. Conheceu Raimundo Bacelar e, contaminado por sonhos e projetos audaciosos, não resistiu ao convite para deles participar.

Mudou-se para São Luís tendo como primeira missão a elaboração do projeto de instalação da Rádio e TV Difusora no edifício João Goulart. A beleza esplendorosa e invulgar de sua criação despertou os  empresários ludovicenses para os novos conceitos, daí em diante não faltaram encomendas e consultas. Abriu-se um novo mercado: instalação e decoração de ambientes comerciais.

A consagração veio com a pintura, autor de quadros e aquarelas fantásticas, Genes  criou cenários antológicos para a programação, ao vivo, da nossa primeira televisão. De percepção muito aguçada, deu vida e alma às aquarelas e retratos que pintou para obsequiar pessoas a quem prezava. Sensível e boêmio inveterado, via o mundo pelo ângulo da poesia, não ligava para os bens materiais, gostava de leitura, viajou e conheceu o mundo. Certa feita encontrei-o a bordo de um avião regressando da Copa do Mundo no México, vestia camiseta da seleção brasileira e usava enorme sombreiro mexicano, comemorava a conquista da Taça sem dar a mínima importância aos outros passageiros.

Em Coelho Neto existe uma rua com o nome de Genes Soares, desconhecida para muitos e o homenageado ignorado por quase todos. Há pouco tempo alguém me questionou: quem foi esse Genes?  – O fato evidencia a falta de memória documental, em nossa Prefeitura e Câmara Municipal, onde deveriam estar arquivados o Projeto de Lei que deu nome ao logradouro, seu autor, a justificativa e a própria Lei promulgada. Talvez tenha sido uma das mais justas e verdadeiras homenagens prestadas por nossa edilidade.

Lamentavelmente eu, como a maioria da população, desconheço a justificativa apresentada. Gostaria que todos soubessem que a participação do laureado artista foi imprescindível à instalação do complexo industrial em nosso município. Para os que cultuam o belo, lembro que a Capela do Itapirema é projeto de Genes Soares.

A obra imortaliza o homem e torna-se patrimônio da humanidade.

*Dr. Magno Bacelar é advogado e exerceu os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador da república, vice-prefeito de São Luís e prefeito de Coelho Neto.

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